30 novembro 2006

Carnatal é Natal

O Carnatal está se aproximando e mais uma vez a cidade vai voltar os olhos para o Corredor da Folia e esquecer todo o resto, como é de praxe. Os assaltantes de casas, carros e de estabelecimentos comerciais já devem estar se aquecendo enquanto escrevo este artigo. "Incrível criticar o Carnatal, não?! Uma festa que traz dinheiro para a cidade!", alguns podem questionar. Mas não é bem a realidade.

Na verdade, o Carnatal é um desserviço à nossa cidade e, mais ainda, à nossa cultura. Um desserviço à nossa cidade por muitas razões. Transtorna a vida de todos em detrimento de uma pequena parcela, causando problemas de trânsito, segurança, barulho na área do entorno. Para quem mora perto, ou se hospeda em um hotel ou simplesmente só dorme depois que a folia acabar. Para quem mora em uma casa, há de suportar o cheiro de mijo durante algumas semanas até. Comerciantes são obrigados a reforçar a segurança por medo de saques. A lista é imensa! Você pode até tentar argumentar com relação aos vendedores ambulantes. Mas antes se lembre de que eles não pagam impostos (exceto os credenciados, mas esses também fazem parte de uma minoria). E também se pergunte se você considera um vendedor ambulante um símbolo do sucesso da política de empregos de qualquer lugar que seja. É um desserviço à nossa cultura no tocante que o que é veiculado não é, sobremaneira, parte de nossa cultura. Não possui nossos traços. Não veio de nossas raízes. É importação de produtos de baixa qualidade a sobrepreço! O imperialismo baiano posto em prática e desfilando abaixo das nossas ventas. É fácil observar que o Carnatal é um grande teatro montado para uma minoria em que o dinheiro público é utilizado massivamente para que alguns poucos da iniciativa privada encham os cofres de dinheiro. Basta ver como a cidade muda toda para se moldar ao evento, e não o contrário, como aconteceria em qualquer lugar civilizado.

É fácil também observar o simbolismo da corda. Ela não é apenas, como parece a olhos inocentes, um aparato de segurança. É, muito mais, uma alegoria de poder. Segrega entre os que podem estar cercados dela e os que não podem. Gerando, então, um vácuo de desejo daqueles de menor poder aquisitivo e, como reação à ação, gera também naqueles que estão do lado de dentro da corda a sensação mais almejada: a compensação da moral-hipocrisia via o pagamento de uma taxa.

Quanto mais alto o preço, maior a libertação que cada um pode ter de sua moral hipócrita. Durante algum pouco tempo podem fazer tudo aquilo que não têm coragem de fazer durante o ano todo. É como um grito insano de alguém proibido de falar durante todos aqueles 365 dias anteriores ao evento, "agora eu vou me liberar". O Carnatal é um palco onde seres sem poder crítico e discernimento se alinham como limalha de ferro sob um ímã às ordens de um asno que rebola freneticamente em cima de um caminhão montado de caixas de som. Como um rebanho de ovelhas, partem de um lugar a lugar algum. Vão, sem objetivo, induzidos pelo sentimento de massa de "beijar porque todo mundo beija, pular porque todo mundo pula", como li no Jornal de Hoje (esqueço o nome do autor no momento, vou buscar).

É a necessidade de se moldar e de estar "conforme" que alimenta o Carnatal. E enquanto a grande maioria da população continuar desejando estar do lado de dentro da corda para poder pertencer à pequena minoria e, então, se alinhar ao ímã do consumismo, então não há possibilidade de crença em progresso em termos de consciência cultural e capital humano. Há, tão somente, a constatação de que a mediocridade reina.

Gabriel Galvão, Natal, 29 de novembro de 2006, a um dia do Carnatal.

Texto extraído do Blog do meu amigo (e ex-paciente =P) Gabriel.
em ===> http://maodupla.blogspot.com/

Eu quero muito ir no bloco ME LEVA!
ME LEVA PRA LONGE DO CARNATAL!!!
abraços

Um comentário:

Magaleando disse...

Adorei o texto..me identifiquei bastante com ele...mas sou obrigada a discordar de alguns pontos (ou não me chamo mariana hehehehe).
Primeiro, sei da bagunça que os ambulantes ocasionam...mas estes só o fazem pq não recebem a devida estrutura para trabalhar...e não pagam impostos?certos eles! ninguém deveria pagar impostos pra tentar sobreviver! tou falando de quem trabalha de verdade..e não aqueles fdps e vão prum plenário dançar e jogar paciência no laptop...ham..nada a ver com Natal...certo...mas traz lucro pra cidade...vivemos do turismo..então..alternativa? tirar do centro da cidade!!!! porra...tanta olra, tanta área disponível pra esse tipo de coisa..vai botar pra tapar as únicas avenidas de natal?!..enfim...tem muita coisa pra refletir ainda...mas gostei..gostei muito do texto